Inflação

Inflação de alimentos desacelera, mas cesta básica ainda pesa 28% do salário mínimo em capitais

Levantamento com preços de junho em São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Recife, Salvador e Brasília mostra arroz e óleo em queda, mas carne e hortifruti seguem pressionando famílias de baixa renda.

Gráfico de inflação de alimentos

O IPCA de maio registrou alta de 0,32%, dentro da expectativa de analistas ouvidos pelo Fluxo. O alívio, porém, é desigual: o subgrupo alimentação desacelerou para 0,41% após meses acima de 0,6%, mas itens de proteína animal e hortifruti seguem com variação positiva em todas as capitais pesquisadas.

Para medir o impacto real no bolso, levantamos preços de uma cesta básica padronizada com 12 itens em seis supermercados de rede e três feiras livres por cidade, entre 1 e 5 de junho de 2026. O resultado: a cesta custa em média R$ 412,80 — equivalente a 28,4% do salário mínimo vigente (R$ 1.454).

Onde o preço caiu

Arroz tipo 1 caiu 4,2% em média nacional nas capitas pesquisadas, reflexo da safra robusta e da queda no preço internacional. Óleo de soja recuou 3,1%, após pico em março. Feijão carioca estabilizou após três meses de alta.

Em Brasília e Belo Horizonte, a queda do arroz foi mais acentuada (5,1% e 4,8%, respectivamente). Em Recife e Salvador, o efeito foi menor (2,9% e 3,2%), pressionado pelo custo logístico.

Onde ainda dói

Carne bovina (acém) subiu 1,8% na média das seis cidades. Tomate e cebola registraram alta de dois dígitos em maio por conta de chuvas no Centro-Sul. Leite longa vida acumula alta de 6,4% no ano — item crítico para famílias com crianças.

Para Maria Aparecida, 44, diarista em São Paulo que ganha um salário mínimo e meio, a conta não fecha mesmo com arroz mais barato. "O que baixa um pouco, o leite e a carne sobem. Eu corto hortifruti e compro só banana e batata", relata.

Perspectiva para o segundo semestre

Economistas consultados projetam inflação de alimentos entre 4,5% e 5,2% em 2026, abaixo dos 5,8% de 2025, mas ainda acima da meta de inflação geral. O câmbio e o clima no Sul continuam sendo variáveis de risco para hortifruti e trigo.

O Banco Central mantém tom cauteloso: serviços ainda resistem à desaceleração e o mercado de trabalho aquecido sustenta consumo. Para quem vive de salário fixo, a recomendação prática — sem glamour — continua sendo a mesma: comparar preço por quilo, aproveitar sazonalidade de feira e renegociar dívidas antes que o juro do cartão coma o ganho marginal da queda do arroz.

Associações de consumidores em São Paulo e Recife relatam aumento de consultas sobre substituição de proteína animal por ovos e leguminosas. A nutricionista Carla Menezes, consultada para esta reportagem, reforça que planejamento semanal reduz desperdício: "Comprar hortifruti para três dias, não para sete, evita perda quando o preço oscila."

O governo federal mantém programa de crédito para agricultura familiar, mas o efeito nos preços de varejo leva meses para aparecer. Enquanto isso, a disputa no bolso continua sendo semanal — e é nesse intervalo que o Fluxo seguirá medindo a cesta.

Como lemos os números

Os percentuais citados nesta reportagem vêm de coleta própria em pontos de venda e de séries oficiais do IBGE. Quando uma base é revisada, atualizamos o texto e indicamos a data da alteração no topo da matéria. Dúvidas sobre metodologia podem ser enviadas para [email protected].